Mensagens

JESUS VIU E TEVE COMPAIXÃO

        No Evangelho de Marcos 6, 30-34 vimos os apóstolos voltarem alegres da missão que Jesus lhes confiou, e comunicando os grandes feitos e ensinamentos do Mestre. A experiência missionária e os sinais que acompanharam a pregação deles eram a própria presença de Jesus no desafio da missão. Jesus envia e assiste os discípulos com a sua graça. Mas Jesus quis também oferecer aos discípulos um pouco de repouso, e os insere num horizonte de intimidade, diálogo e paz. O silêncio e o repouso são uma necessidade psicológica, mas também uma exigência fundamental do espírito humano. O repouso descrito no Evangelho é sempre cheio dos sinais reveladores de Jesus. Ele prepara os discípulos para avaliarem e darem continuidade à missão; ele alimenta a vida e a missão dos discípulos. Uma vez fortalecidos pelo repouso, eles estarão mais preparados para a missão com Jesus.

      De outro lado, os discípulos são também chamados a formar um só corpo com Jesus; não podem negligenciar as exigências da multidão. Eles devem se associar à missão de Jesus, ou seja, ensinar e alimentar o povo. O evangelista Marcos nos inspira a imitar Jesus, compassivo e misericordioso, na atividade evangelizadora. O pastor é aquele que cuida amorosamente do rebanho do Senhor. É aquele que reúne o seu povo disperso e abandonado. Jesus é o autêntico Pastor que ensina o povo e lhe dá o pão no deserto. Dá o pão gratuito e abundante que sacia todo o rebanho. Ele se compadece da multidão que tem fome e sede de sua palavra, que nutre e dá sentido à toda existência. Ele dá o pão da palavra que sacia primeiro o espírito do homem; palavra que preenche o homem plenamente; que dota a vida de um significado mais profundo. O evangelista descreve Jesus totalmente entregue e focado no anúncio do Reino de Deus. Jesus que quer estar junto ao povo, vendo e sentindo suas necessidades e carências.

      Jesus ensina aos discípulos e, através deles, a nós, a não cairmos no discurso puro e vazio, mas atrair a multidão com gestos de misericórdia e compaixão; a sermos sensíveis às ovelhas cansadas e abatidas por diversas dores; frutos da injustiça, desigualdade e indiferentismo que, muitas vezes, imperam em nosso mundo.

     Que a compaixão sentida por Jesus ao ver a multidão abatida, possa preencher e sensibilizar os nossos corações, a fim de nos abrirmos aos mais necessitados, vulneráveis e últimos de nossa sociedade. Que tal compaixão não seja um mero sentimento, mas o modo de ser de cada cristão. Assim seremos capazes de sentir como Jesus sentia e amar como Jesus amou.

D. Pedro Cunha Cruz

Bispo da Diocese da Campanha-MG

PAPA FRANCISCO AUTORIZA QUE PADRES POSSAM PERDOAR O ABORTO

 

Em caráter definitivo, o Papa Francisco autorizou, nessa segunda-feira (21), que todos os padres da Igreja Católica possam perdoar o aborto. Antes, somente bispos poderiam fazer isso. Com a decisão, quem fizer aborto - médicos e pacientes - não será mais excomungado pela Igreja. Foi mais uma revolução de Francisco. Em uma carta apostólica, ele deu aos padres o direito permanente de absolver as pessoas que praticaram o aborto. O Papa decidiu que esta conduta anunciada para o Jubileu da Misericórdia deve continuar, mesmo depois do ano santo, que foi encerrado no domingo (20).As palavras do pontífice foram: “Para que nenhum obstáculo interfira entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, com a força do ministério deles, a faculdade de absolver os que cometeram o pecado do aborto”. O documento pede que os casos sejam analisados não apenas pelas normas da Igreja, mas pela misericórdia e pela justiça divina. O Papa ressaltou que a misericórdia é um valor social, que deve devolver dignidade a milhões de pessoas e que ninguém pode impor condições à clemência divina, em uma resposta à ala integralista da Igreja, que não concorda com as suas opiniões e reformas. Outro desejo que o Papa Francisco expressou na carta apostólica é que seja instituído o dia mundial dos pobres. No domingo, ele fechou a porta santa da Basílica de Pedro, que deverá ser reaberta só em 2025, mas afirmou que as portas do perdão e da misericórdia devem continuar abertas.

Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) disse que acolheu as orientações do Papa e disse que elas são mais um gesto misericordioso dele para todos os católicos. A CNBB disse que cada bispo, em sua diocese, passará as orientações necessárias ao clero e ao povo.

 

CARTA AO POVO DE DEUS

Queridos (as) irmãos (ãs) de todas as comunidades eclesiais da Província Eclesiástica de Pouso Alegre – MG (Diocese da Campanha, diocese de Guaxupé e arquidiocese de Pouso Alegre) Saudações fraternas! Nós, os participantes da III Semana Provincial de Liturgia da Província Eclesiástica de Pouso Alegre (MG), realizada no Colégio Imaculada Conceição, em Passos (MG), de 15 a 19 de julho de 2019, tivemos a alegria de, mais uma vez, nos encontrarmos para refletir e vivenciar o amor de Cristo que se faz serviço de comunhão na sua Igreja. Nesse ano, contamos também com representantes da diocese de Oliveira (MG), a quem agradecemos a presença e reiteramos nossa disposição em caminhar na unidade e mútua cooperação. Os Sacramentos do serviço da comunhão e Liturgia foi o tema que nos congregou, e fomos iluminados pelo lema: “Fazei-vos servos uns dos outros pelo amor” (Gl 5,13). Tendo por base os Sacramentos da Iniciação à Vida Cristã (Batismo, Confirmação e Eucaristia), dois outros sacramentos, a Ordem e o Matrimônio, estão ordenados à salvação de outras pessoas. Se contribuem também para a salvação pessoal, isso acontece por meio do serviço aos outros. Conferem uma missão particular na Igreja e servem para a edificação do Povo de Deus (cf. CIC, 1534). Experienciamos o amor de Deus na fraternidade e na comunhão por meio da Palavra ouvida e celebrada, na participação do Sacramento do Matrimônio, ocorrido na noite do dia 17 de julho, nas vivências mistagógicas, na convivência, nas partilhas da vida pessoal e comunitária, na reflexão, nos cantos, na alegria, no testemunho de acolhida e de solidariedade. Voltamos, hoje, carregados de sementes, na certeza de que elas precisam ser lançadas no chão da vida e da realidade de nossas comunidades eclesiais e sociedade, para que a caridade continue sendo testemunhada por meio do serviço da comunhão. Sabemos que contamos com a graça de Deus para que nossas famílias se renovem e se fortaleça o cuidado de nossos pastores ao rebanho a eles confiado pelo Bom Pastor. O que vimos e experimentamos com mais consciência? 1- Quanto ao sacramento do Matrimônio: - O mistério da união conjugal de um casal lhe permite atualizar e expressar o mistério do amor infinito de Cristo pela sua Esposa, a Igreja, a quem Ele ofereceu a própria vida; - O Matrimônio não é uma realidade fechada em si, da qual participam apenas os cônjuges, mas abre-se para a participação de toda a comunidade nesta vivência amorosa; - Conforme o Catecismo da Igreja Católica, a aliança matrimonial, pela qual o homem e a mulher constituem entre si a comunhão da vida toda, é ordenada, por sua índole natural, ao bem do casal, à geração e à educação dos filhos, e foi elevada, entre os batizados, à dignidade de sacramento por Jesus Cristo (cf. CIC, 1601). 2. Quanto ao sacramento da Ordem: - Jesus Cristo, “sumo e eterno Sacerdote” (cf. Hb 8,1), chamou a si os que Ele quis (cf. Mc 3,13), os iniciou nos mistérios do Reino com atitudes e palavras, confiando-lhes a missão de conduzir a Igreja até o final dos tempos como bons pastores. Por meio deles, o próprio Cristo está presente em sua Igreja como Cabeça de seu corpo (Cf. CIC, 1547); - O ministério eclesiástico é exercido em três graus diversos: o episcopado (bispos), presbiterado (padres) e o diaconado (diáconos), todos eles conferidos por um ato sacramental chamado “ordenação”. São participação no único sacerdócio de Jesus Cristo e destinados ao serviço da comunhão do povo de Deus. Como desafio-oportunidade percebemos a nossa pouca compreensão da profundidade e riqueza desses sacramentos, o que exige: conscientização, catequese e cuidado para que a celebração expresse, na sua ritualidade, o serviço que Cristo prestou e continua prestando à humanidade por meio da ação de sua Igreja. Que compromissos assumimos? 01. Conhecer melhor a riqueza teológica e litúrgica dos sacramentos do Matrimônio e da Ordem, procurando estudar os documentos oficiais da Igreja a respeito desses sacramentos, especialmente o Ritual do Matrimônio e o Pontifical Romano. Acreditamos que tal aprofundamento ajudaria a diminuir ou mesmo superar os tradicionais problemas relativos a escolha de músicas, abusos nos espaços celebrativos, descuidos na proclamação da Palavra de Deus etc. 02. Cuidar para que as celebrações sejam precedidas por processos catequéticos e formativos que valorizem e eduquem para o real significado desses sacramentos; 03. Restituir às celebrações desses sacramentos sua dimensão simbólico-mistagógica, evidenciando a riqueza da sua ritualidade, a dimensão comunitária e os compromissos sociotransformadores que brotam delas; 04. Intensificar a comunhão e o diálogo entre a Pastoral Litúrgica e o Setor Família das nossas dioceses, para que a catequese pré-matrimonial conduza a celebrações do matrimônio em harmonia com as orientações do Ritual, isto é, que a liturgia do casamento seja celebrada de maneira plena, consciente e ativa (cf. SC 14) por parte dos noivos e de toda comunidade. Tal nível de consciência demanda a superação das metodologias apressadas de preparação dos noivos, e sua cuidadosa e gradual formação. 05. Promover maior interação entre a Pastoral Litúrgica, as casas de formação dos futuros presbíteros e as escolas diaconais, de modo que a celebração do sacramento da Ordem, em todos os seus níveis, ocorra em conformidade com a riqueza ritual proposta pelo Pontifical Romano, evitando que o personalismo do ordenando se imponha, e que visibilize e promova a comunhão eclesial. Que a Imaculada Conceição interceda por nós, para que, seguindo seu exemplo, sejamos “servos uns dos outros pelo amor” (Gl 5,13). Imploramos para todos as bênçãos de Deus, e pedimos que rezem por nós e por nossas comunidades! Passos, 19 de julho de 2019

 

MENSAGEM DO SANTO PADRE FRANCISCO PARA O III DIA MUNDIAL DOS POBRES

XXXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM
(17 DE NOVEMBRO DE 2019)

«A esperança dos pobres jamais se frustrará»

 

1. «A esperança dos pobres jamais se frustrará» (Sal 9, 19). Estas palavras são de incrível atualidade. Expressam uma verdade profunda, que a fé consegue gravar sobretudo no coração dos mais pobres: a esperança perdida devido às injustiças, aos sofrimentos e à precariedade da vida será restabelecida.

O salmista descreve a condição do pobre e a arrogância de quem o oprime (cf. Sal 10, 1-10). Invoca o juízo de Deus, para que seja restabelecida a justiça e vencida a iniquidade (cf. Sal 10, 14-15). Parece ecoar nas suas palavras uma questão que atravessa o decurso dos séculos até aos nossos dias: como é que Deus pode tolerar esta desigualdade? Como pode permitir que o pobre seja humilhado, sem intervir em sua ajuda? Por que consente que o opressor tenha vida feliz, enquanto o seu comportamento haveria de ser condenado precisamente devido ao sofrimento do pobre?

No período da redação do Salmo, assistia-se a um grande desenvolvimento económico, que acabou também – como acontece frequentemente – por gerar fortes desequilíbrios sociais. A desigualdade gerou um grupo considerável de indigentes, cuja condição aparecia ainda mais dramática quando comparada com a riqueza alcançada por poucos privilegiados. Observando esta situação, o autor sagrado pinta um quadro realista e muito verdadeiro.

Era o tempo em que pessoas arrogantes e sem qualquer sentido de Deus espiavam os pobres para se apoderar até do pouco que tinham, reduzindo-os à escravidão. A realidade, hoje, não é muito diferente! A numerosos grupos de pessoas, a crise económica não lhes impediu um enriquecimento tanto mais anómalo quando confrontado com o número imenso de pobres que vemos pelas nossas estradas e a quem falta o necessário, acabando por vezes humilhados e explorados. Acodem à mente estas palavras do Apocalipse: «Porque dizes: “sou rico, enriqueci e nada me falta”, e não te dás conta de que és um infeliz, um miserável, um pobre, um cego, um nu?» (3, 17). Passam os séculos, mas permanece imutável a condição de ricos e pobres, como se a experiência da história não ensinasse nada. Assim, as palavras do salmo não dizem respeito ao passado, mas ao nosso presente submetido ao juízo de Deus.

2. Também hoje devemos elencar muitas formas de novas escravidões a que estão submetidos milhões de homens, mulheres, jovens e crianças.

Todos os dias encontramos famílias obrigadas a deixar a sua terra à procura de formas de subsistência noutro lugar; órfãos que perderam os pais ou foram violentamente separados deles para uma exploração brutal; jovens em busca duma realização profissional, cujo acesso lhes é impedido por míopes políticas económicas; vítimas de tantas formas de violência, desde a prostituição à droga, e humilhadas no seu íntimo. Além disso, como esquecer os milhões de migrantes vítimas de tantos interesses ocultos, muitas vezes instrumentalizados para uso político, a quem se nega a solidariedade e a igualdade? E tantas pessoas sem abrigo e marginalizadas que vagueiam pelas estradas das nossas cidades?

Quantas vezes vemos os pobres nas lixeiras a catar o descarte e o supérfluo, a fim de encontrar algo para se alimentar ou vestir! Tendo-se tornado, eles próprios, parte duma lixeira humana, são tratados como lixo, sem que isto provoque qualquer sentido de culpa em quantos são cúmplices deste escândalo. Aos pobres, frequentemente considerados parasitas da sociedade, não se lhes perdoa sequer a sua pobreza. A condenação está sempre pronta. Não se podem permitir sequer o medo ou o desânimo: simplesmente porque pobres, serão tidos por ameaçadores ou incapazes.

Drama dentro do drama, não lhes é consentido ver o fim do túnel da miséria. Chegou-se ao ponto de teorizar e realizar uma arquitetura hostil para desembaraçar-se da sua presença mesmo nas estradas, os últimos espaços de acolhimento. Vagueiam duma parte para outra da cidade, esperando obter um emprego, uma casa, um afeto… Qualquer possibilidade que eventualmente lhes seja oferecida, torna-se um vislumbre de luz; e mesmo nos lugares onde deveria haver pelo menos justiça, até lá muitas vezes se abate sobre eles violentamente a prepotência. Constrangidos durante horas infinitas sob um sol abrasador para recolher a fruta da época, são recompensados com um ordenado irrisório; não têm segurança no trabalho, nem condições humanas que lhes permitam sentir-se iguais aos outros. Para eles, não existe fundo de desemprego, liquidação nem sequer a possibilidade de adoecer.

Com vivo realismo, o salmista descreve o comportamento dos ricos que roubam os pobres: «Arma ciladas para assaltar o pobre e (…) arrasta-o na sua rede» (cf. Sal 10, 9). Para eles, é como se se tratasse duma caçada, na qual os pobres são perseguidos, presos e feitos escravos. Numa condição assim, fecha-se o coração de muitos, e leva a melhor o desejo de desaparecer. Em suma, reconhecemos uma multidão de pobres, muitas vezes tratados com retórica e suportados com fastídio. Como que se tornam invisíveis, e a sua voz já não tem força nem consistência na sociedade. Homens e mulheres cada vez mais estranhos entre as nossas casas e marginalizados entre os nossos bairros.

3. O contexto descrito pelo salmo tinge-se de tristeza, devido à injustiça, ao sofrimento e à amargura que fere os pobres. Apesar disso, dá uma bela definição do pobre: é aquele que «confia no Senhor» (cf. 9, 11), pois tem a certeza de que nunca será abandonado. Na Escritura, o pobre é o homem da confiança! E o autor sagrado indica também o motivo desta confiança: ele «conhece o seu Senhor» (cf. 9, 11) e, na linguagem bíblica, este «conhecer» indica uma relação pessoal de afeto e de amor.

Encontramo-nos perante uma descrição verdadeiramente impressionante, que nunca esperaríamos. Assim faz sobressair a grandeza de Deus, quando Se encontra diante dum pobre. A sua força criadora supera toda a expetativa humana e concretiza-se na «recordação» que Ele tem daquela pessoa concreta (cf. 9, 13). É precisamente esta confiança no Senhor, esta certeza de não ser abandonado, que convida o pobre à esperança. Sabe que Deus não o pode abandonar; por isso, vive sempre na presença daquele Deus que Se recorda dele. A sua ajuda estende-se para além da condição atual de sofrimento, a fim de delinear um caminho de libertação que transforma o coração, porque o sustenta no mais profundo do seu ser.

4. Constitui um refrão permanente da Sagrada Escritura a descrição da ação de Deus em favor dos pobres. É Aquele que «escuta», «intervém», «protege», «defende», «resgata», «salva»… Em suma, um pobre não poderá jamais encontrar Deus indiferente ou silencioso perante a sua oração. É Aquele que faz justiça e não esquece (cf. Sal 40, 18; 70, 6); mais, constitui um refúgio para o pobre e não cessa de vir em sua ajuda (cf. Sal 10, 14).

Podem-se construir muitos muros e obstruir as entradas, iludindo-se assim de sentir-se a seguro com as suas riquezas em prejuízo dos que ficam do lado de fora. Mas não será assim para sempre. O «dia do Senhor», descrito pelos profetas (cf. Am 5, 18; Is 2 – 5; Jl 1 – 3), destruirá as barreiras criadas entre países e substituirá a arrogância de poucos com a solidariedade de muitos. A condição de marginalização, em que vivem acabrunhadas milhões de pessoas, não poderá durar por muito tempo. O seu clamor aumenta e abraça a terra inteira. Como escrevia o Padre Primo Mazzolari: «O pobre é um contínuo protesto contra as nossas injustiças; o pobre é um paiol. Se lhe ateias o fogo, o mundo vai pelo ar».

5. Não é possível jamais iludir o premente apelo que a Sagrada Escritura confia aos pobres. Para onde quer que se volte o olhar, a Palavra de Deus indica que os pobres são todos aqueles que, não tendo o necessário para viver, dependem dos outros. São o oprimido, o humilde, aquele que está prostrado por terra. Mas, perante esta multidão inumerável de indigentes, Jesus não teve medo de Se identificar com cada um deles: «Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes» (Mt 25, 40). Esquivar-se desta identificação equivale a ludibriar o Evangelho e diluir a revelação. O Deus que Jesus quis revelar é este: um Pai generoso, misericordioso, inexaurível na sua bondade e graça, que dá esperança sobretudo a quantos estão desiludidos e privados de futuro.

Como não assinalar que as Bem-aventuranças, com que Jesus inaugurou a pregação do Reino de Deus, começam por esta expressão: «Felizes vós, os pobres» (Lc 6, 20)? O sentido deste anúncio paradoxal é precisamente que o Reino de Deus pertence aos pobres, porque estão na condição de o receber. Encontramos tantos pobres cada dia! Às vezes parece que o transcorrer do tempo e as conquistas da civilização, em vez de diminuir o seu número, aumentam-no. Passam os séculos, e aquela Bem-aventurança evangélica apresenta-se cada vez mais paradoxal: os pobres são sempre mais pobres, e hoje são-no ainda mais. Mas, colocando no centro os pobres ao inaugurar o seu Reino, Jesus quer-nos dizer precisamente isto: Ele inaugurou, mas confiou-nos, a nós seus discípulos, a tarefa de lhe dar seguimento, com a responsabilidade de dar esperança aos pobres. Sobretudo num período como o nosso, é preciso reanimar a esperança e restabelecer a confiança. É um programa que a comunidade cristã não pode subestimar. Disso depende a credibilidade do nosso anúncio e do testemunho dos cristãos.

6. Ao aproximar-se dos pobres, a Igreja descobre que é um povo, espalhado entre muitas nações, que tem a vocação de fazer com que ninguém se sinta estrangeiro nem excluído, porque a todos envolve num caminho comum de salvação. A condição dos pobres obriga a não se afastar do Corpo do Senhor que sofre neles. Antes, pelo contrário, somos chamados a tocar a sua carne para nos comprometermos em primeira pessoa num serviço que é autêntica evangelização. A promoção, mesmo social, dos pobres não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho; pelo contrário, manifesta o realismo da fé cristã e a sua validade histórica. O amor que dá vida à fé em Jesus não permite que os seus discípulos se fechem num individualismo asfixiador, oculto nas pregas duma intimidade espiritual, sem qualquer influxo na vida social (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 183).

Recentemente, choramos a perda dum grande apóstolo dos pobres, Jean Vanier, o qual, com a sua dedicação, abriu novos caminhos à partilha promotora das pessoas marginalizadas. Jean Vanier recebeu de Deus o dom de dedicar toda a sua vida aos irmãos com deficiências profundas, que muitas vezes a sociedade tende a excluir. Foi um «santo da porta ao lado» da nossa; com o seu entusiasmo, soube reunir à sua volta muitos jovens, homens e mulheres, que, com o seu empenho diário, deram amor e devolveram o sorriso a tantas pessoas vulneráveis e frágeis, oferecendo-lhes uma verdadeira «arca» de salvação contra a marginalização e a solidão. Este seu testemunho mudou a vida de muitas pessoas e ajudou o mundo a olhar com olhos diferentes para as pessoas mais frágeis e vulneráveis. O clamor dos pobres foi ouvido e gerou uma esperança inabalável, criando sinais visíveis e palpáveis dum amor concreto, que podemos constatar até ao dia de hoje.

7. «A opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora» (ibid., 195), é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos. É neles que a caridade cristã encontra a sua prova real, porque quem partilha os seus sofrimentos com o amor de Cristo recebe força e dá vigor ao anúncio do Evangelho.

O compromisso dos cristãos, por ocasião deste Dia Mundial e sobretudo na vida ordinária de cada dia, não consiste apenas em iniciativas de assistência que, embora louváveis e necessárias, devem tender a aumentar em cada um aquela atenção plena, que é devida a toda a pessoa que se encontra em dificuldade. «Esta atenção amiga é o início duma verdadeira preocupação» (ibid., 199) pelos pobres, buscando o seu verdadeiro bem. Não é fácil ser testemunha da esperança cristã no contexto cultural do consumismo e do descarte, sempre propenso a aumentar um bem-estar superficial e efémero. Requer-se uma mudança de mentalidade para redescobrir o essencial, para encarnar e tornar incisivo o anúncio do Reino de Deus.

A esperança comunica-se também através da consolação que se implementa acompanhando os pobres, não por alguns dias permeados de entusiasmo, mas com um compromisso que perdura no tempo. Os pobres adquirem verdadeira esperança, não quando nos veem gratificados por lhes termos concedido um pouco do nosso tempo, mas quando reconhecem no nosso sacrifício um ato de amor gratuito que não procura recompensa.

8. A tantos voluntários, a quem muitas vezes é devido o mérito de ter sido os primeiros a intuir a importância desta atenção aos pobres, peço para crescerem na sua dedicação. Queridos irmãos e irmãs, exorto-vos a procurar, em cada pobre que encontrais, aquilo de que ele tem verdadeiramente necessidade; a não vos deter na primeira necessidade material, mas a descobrir a bondade que se esconde no seu coração, tornando-vos atentos à sua cultura e modos de se exprimir, para poderdes iniciar um verdadeiro diálogo fraterno. Coloquemos de parte as divisões que provêm de visões ideológicas ou políticas, fixemos o olhar no essencial que não precisa de muitas palavras, mas dum olhar de amor e duma mão estendida. Nunca vos esqueçais que «a pior discriminação que sofrem os pobres é a falta de cuidado espiritual» (ibid., 200).

Antes de tudo, os pobres precisam de Deus, do seu amor tornado visível por pessoas santas que vivem ao lado deles e que, na simplicidade da sua vida, exprimem e fazem emergir a força do amor cristão. Deus serve-se de tantos caminhos e de infinitos instrumentos para alcançar o coração das pessoas. É certo que os pobres também se aproximam de nós porque estamos a distribuir-lhes o alimento, mas aquilo de que verdadeiramente precisam ultrapassa a sopa quente ou a sanduíche que oferecemos. Os pobres precisam das nossas mãos para se reerguer, dos nossos corações para sentir de novo o calor do afeto, da nossa presença para superar a solidão. Precisam simplesmente de amor...

9. Por vezes, basta pouco para restabelecer a esperança: basta parar, sorrir, escutar. Durante um dia, deixemos de parte as estatísticas; os pobres não são números, que invocamos para nos vangloriar de obras e projetos. Os pobres são pessoas a quem devemos encontrar: são jovens e idosos sozinhos que se hão de convidar a entrar em casa para partilhar a refeição; homens, mulheres e crianças que esperam uma palavra amiga. Os pobres salvam-nos, porque nos permitem encontrar o rosto de Jesus Cristo.

Aos olhos do mundo, é irracional pensar que a pobreza e a indigência possam ter uma força salvífica; e, todavia, é o que ensina o Apóstolo quando diz: «Humanamente falando, não há entre vós muitos sábios, nem muitos poderosos, nem muitos nobres. Mas o que há de louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios; e o que há de fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte. O que o mundo considera vil e desprezível é que Deus escolheu; escolheu os que nada são, para reduzir a nada aqueles que são alguma coisa. Assim, ninguém se pode vangloriar diante de Deus» (1 Cor 1, 26-29). Com os olhos humanos, não se consegue ver esta força salvífica; mas, com os olhos da fé, é possível vê-la em ação e experimentá-la pessoalmente. No coração do Povo de Deus em caminho, palpita esta força salvífica que não exclui ninguém, e a todos envolve numa verdadeira peregrinação de conversão para reconhecer os pobres e amá-los.

10. O Senhor não abandona a quem O procura e a quantos O invocam; «não esquece o clamor dos pobres» (Sal 9, 13), porque os seus ouvidos estão atentos à sua voz. A esperança do pobre desafia as várias condições de morte, porque sabe que é particularmente amado por Deus e, assim, triunfa sobre o sofrimento e a exclusão. A sua condição de pobreza não lhe tira a dignidade que recebeu do Criador; vive na certeza de que a mesma ser-lhe-á restabelecida plenamente pelo próprio Deus. Ele não fica indiferente à sorte dos seus filhos mais frágeis; pelo contrário, observa as suas fadigas e sofrimentos, para os tomar na sua mão, e dá-lhes força e coragem (cf. Sal 10, 14). A esperança do pobre torna-se forte com a certeza de que é acolhido pelo Senhor, n’Ele encontra verdadeira justiça, fica revigorado no coração para continuar a amar (cf. Sal 10, 17).

Aos discípulos do Senhor Jesus, a condição que se lhes impõe para serem evangelizadores coerentes é semear sinais palpáveis de esperança. A todas as comunidades cristãs e a quantos sentem a exigência de levar esperança e conforto aos pobres, peço que se empenhem para que este Dia Mundial possa reforçar em muitos a vontade de colaborar concretamente para que ninguém se sinta privado da proximidade e da solidariedade. Acompanhem-nos as palavras do profeta que anuncia um futuro diferente: «Para vós, que respeitais o meu nome, brilhará o sol de justiça, trazendo a cura nos seus raios» (Ml 3, 20).

Vaticano, na Memória litúrgica de Santo António de Lisboa, 13 de junho de 2019.

Francisco

 

Exame de consciência:
1. Como tenho cuidado de minha saúde corporal: alimentação, álcool, droga, atividade física, descanso e lazer, sono, quando doente
2.  Como tenho procurado me conhecer e trabalhado minha personalidade: cultivado silêncio, temperamento, impulsivo? ansioso? rancor?  mágoa? Vingativo? Discrição? Inveja? Orgulho? 
3. Vivência da sexualidade: pensamentos, TV, Internet, meu corpo, corpo alheio? Luxúria?
4. Família: diálogo, fidelidade, perdão, financeiramente, desperdício, outras famílias?
5. Vizinhos e amigos: conhecimento, respeito à privacidade, barulho, confiável, auxílio nas necessidades?
6. Trabalho (e ou escola): com que sentimentos? Competência? Com os colegas? Criatividade? Honestidade?
7. . Sociedade: informação, bairro, município, eleições?
8. Ecologia: informação, desperdício, poluição, consumismo     
9. Fé: oração, sacramentos, Bíblia, estudo, comunidade, pastoral?
10. Omissão: deixado de fazer o bem, a preguiça, desculpas e mentiras


 

OS TRÊS PRESENTES


                Certa vez Jesus foi interrogado sobre qual seria o maior mandamento. Bom lembrar que a pergunta era uma “pegadinha”, pois quem a fizera era um doutor da lei que queria comprometer Jesus, ver se ele cairia numa contradição, ou violação da lei judaica.
               Sabiamente, como sempre, respondeu: “O maior e o primeiro mandamento é amaras o Senhor, teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu entendimento! Esse é o maior e o primeiro mandamento. Ora o segundo lhe é semelhante: ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo! ’ Toda Lei o os Profetas dependem desses dois mandamentos”. (Mt 22, 39)
               O amor tem sua fonte no coração e no entendimento, porém, deve ser traduzido em atitudes. Caso contrário não passará de boa intenção, mas não será efetivamente amor.
               Levando em consideração tudo isso, estou propondo uma “campanha” que foi lançada na festa de S. Antônio, dia 13 de junho passado. A dos três presentes.
               Cada dia poderemos propor três presentes, os quais não serão necessariamente materiais, ou seja, não irá depender de questões financeiras. Até pelo contrário, quantas vezes damos um presente material para substituir, recompensar o que não fazemos afetivamente. Quantas vezes esmolas são dadas pelo simples fato de nos livrarmos de pessoas que estão no incomodando.
               Os presentes poderão ser pensados no início do dia, como propostas, de acordo com a agenda de cada um, ou na ação mesma, na medida em que forem sendo realizadas, ou, ao deitar, como revisão do dia.
               O primeiro presente será ofertado a Deus, o segundo a uma ou a um grupo de pessoas, e o terceiro, a nós mesmos, conforme o texto citado no início deste artigo.
               Apresento algumas sugestões, as quais servirão mais como ilustração do que está sendo proposto.
               O que seria um presente a Deus, senhor de todas as coisas? Um momento tranquilo de oração, a participação consciente da missa, um jejum, sacrifício ou mortificação, um estudo da Bíblia, um momento de evangelização, quando poderemos divulgar o nome e as obras divinas.
               Quais seriam os possíveis presentes para o outro? Uma visita a um enfermo, a escuta amiga e confidencial de alguém que necessita desabafar, uma esmola, a doação de alimento ou roupa a quem necessita, a participação de evento sócio educacional, até mesmo no sentido de apoiar e  prestigiar seus organizadores.
               E, quais seriam possíveis presentes para nós mesmos? Um momento de descanso durante o dia, a audição de uma boa música, a leitura de bons livros, a procura de um orientador espiritual (que não precisa ser necessariamente um sacerdote).
               Tente realizar isso todos os dias. Faça dessas práticas uma constante em sua vida. Além de cumprir a palavra de Deus, você estará colocando qualidade de em sua vida. Faça a experiência.
Pe. Rogério Ferreira da Silva

Sonhamos com o voo, mas tememos as alturas.

 

Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o vazio,

 

Porque é só no vazio que o voo acontece.

 

O vazio é o espaço da liberdade, a ausência das certezas.

 

Mas, é isso que tememos: o não ter certeza.

 

Por isso, trocamos os voos pelas gaiolas.

 

As gaiolas são os lugares onde as certezas moram.

(Rubem Alves)

SOBRE A UNÇÃO DOS ENFERMOS

 1. Há muitos anos - desde o Concílio Vaticano II,  o Sacramento recebeu o nome de "Unção" e não mais "extrema unção" - "última unção;

2. Embora não seja errado, o sacramento  não pode ser entendido como uma "passagem/ingresso" para o céu, isto é, para aqueles que estão em situações de risco de morte. Assim, ele é dirigido, preferencialmente,    aos enfermos a fim de que possam restabelecer a saúde. Geralmente, a não ser em caso de acidentes, uma pessoa não fica mal de uma hora para outra;

3. Nos quadros atuais, o padre não permanece em casa comodamente esperando ser chamado para ministrar o referido sacramento. Hoje em dia, poucas pessoas sabem isso,  diferente de 60 anos atrás, o padre, além de celebrar a missa, tem de administrar a paróquia, atender as pessoas, preparar palestras e cursos, atender solicitações de outras comunidades, visitar os paroquianos de forma geral, participar de atividades diocesanas. Não levar isso em consideração é, no mínimo, faltar apoio ao padre, pois o deixa fragilizado, sem saber o que priorizar, além de dar a impressão que não está atento à situação de seus paroquianos, gerando entre as famílias dos enfermos revolta contra seus ministros e até mesmo em relação à Igreja como um todo;

4. Os textos bíblicos e as orações utilizadas na celebração desse sacramento têm caráter inspirador, manifestando confiança em Deus num todo, não apenas para a remissão dos pecados do enfermo, ou mesmo, pedido de boa morte. 

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO
QUARTA-FEIRA DE CINZAS - 14.02.18

 

O tempo de Quaresma é propício para corrigir os acordes dissonantes da nossa vida cristã e acolher a notícia sempre nova, feliz e esperançosa da Páscoa do Senhor. Na sua sabedoria materna, a Igreja propõe-nos prestar especial atenção a tudo o que possa arrefecer e oxidar o nosso coração crente.

 

Múltiplas são as tentações, a que nos vemos expostos. Cada um de nós conhece as dificuldades que deve enfrentar. E é triste constatar, nas vicissitudes diárias, como se levantam vozes que, aproveitando-se da amargura e da incerteza, nada mais sabem semear senão desconfiança. E, se o fruto da fé é a caridade – como gostava de repetir Santa Teresa de Calcutá –, o fruto da desconfiança é a apatia e a resignação. Desconfiança, apatia e resignação: os demónios que cauterizam e paralisam a alma do povo crente.

 

A Quaresma é tempo precioso para desmascarar estas e outras tentações e deixar que o nosso coração volte a bater segundo as palpitações do coração de Jesus. Toda esta liturgia está impregnada por este sentir, podendo-se afirmar que o mesmo ecoa em três palavras que nos são oferecidas para «aquecer o coração crente»: para, olha e regressa.

 

Para um pouco, deixa esta agitação e este correr sem sentido que enche a alma de amargura sentindo que nunca se chega a parte alguma. Para, deixa esta obrigação de viver de forma acelerada, que dispersa, divide e acaba por destruir o tempo da família, o tempo da amizade, o tempo dos filhos, o tempo dos avós, o tempo da gratuidade... o tempo de Deus.

 

Para um pouco com essa necessidade de aparecer e ser visto por todos, mostrar-se constantemente «em vitrina», que faz esquecer o valor da intimidade e do recolhimento.

 

Para um pouco com o olhar altivo, o comentário ligeiro e desdenhoso que nasce de se ter esquecido a ternura, a compaixão e o respeito pelo encontro com os outros, especialmente os vulneráveis, feridos e até imersos no pecado e no erro.

 

Para um pouco com essa ânsia de querer controlar tudo, saber tudo, devassar tudo, que nasce de se ter esquecido a gratidão pelo dom da vida e tanto bem recebido.

 

Para um pouco com o ruído ensurdecedor que atrofia e atordoa os nossos ouvidos e nos faz esquecer a força fecunda e criativa do silêncio.

 

Para um pouco com a atitude de fomentar sentimentos estéreis e infecundos que derivam do fechamento e da autocomiseração e levam a esquecer de sair ao encontro dos outros para compartilhar as cargas e os sofrimentos.

 

Para diante do vazio daquilo que é instantâneo, momentâneo e efémero, que nos priva das raízes, dos laços, do valor dos percursos e de nos sentirmos sempre a caminho.

 

Para, para olhar e contemplar!

 

Olha os sinais que impedem de se apagar a caridade, que mantêm viva a chama da fé e da esperança. Rostos vivos com a ternura e a bondade de Deus, que age no meio de nós.

 

Olha o rosto das nossas famílias que continuam a apostar dia após dia, fazendo um grande esforço para avançar na vida e, entre muitas carências e privações, não descuram tentativa alguma para fazer da sua casa uma escola de amor.

 

Olha os rostos interpeladores das nossas crianças e jovens carregados de futuro e de esperança, carregados de amanhã e de potencialidades que exigem dedicação e salvaguarda. Rebentos vivos do amor e da vida que sempre conseguem abrir caminho por entre os nossos cálculos mesquinhos e egoístas.

 

Olha os rostos dos nossos idosos, enrugados pelo passar do tempo: rostos portadores da memória viva do nosso povo. Rostos da sabedoria operante de Deus.

 

Olha os rostos dos nossos doentes e de quantos se ocupam deles; rostos que, na sua vulnerabilidade e no seu serviço, nos lembram que o valor de cada pessoa não pode jamais reduzir-se a uma questão de cálculo ou de utilidade.

 

Olha os rostos arrependidos de muitos que procuram remediar os seus erros e disparates e, a partir das suas misérias e amarguras, lutam por transformar as situações e continuar para diante.

 

Olha e contempla o rosto do Amor Crucificado, que continua hoje, a partir da cruz, a ser portador de esperança; mão estendida para aqueles que se sentem crucificados, que experimentam na sua vida o peso dos fracassos, dos desenganos e das desilusões.

 

Olha e contempla o rosto concreto de Cristo crucificado por amor de todos sem exclusão. De todos? Sim; de todos. Olhar o seu rosto é o convite cheio de esperança deste tempo de Quaresma para vencer os demónios da desconfiança, da apatia e da resignação. Rosto que nos convida a exclamar: o Reino de Deus é possível!

 

Para, olha e regressa. Regressa à casa de teu Pai. Regressa sem medo aos braços ansiosos e estendidos de teu Pai, rico em misericórdia (cf. Ef 2, 4), que te espera!

 

Regressa! Sem medo: este é o tempo oportuno para voltar a casa, a casa do «meu Pai e vosso Pai» (cf. Jo 20, 17). Este é o tempo para se deixar tocar o coração... Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa muito diferente, e bem o sabe o nosso coração. Deus não Se cansa nem Se cansará de estender a mão (cf. Bula Misericordiae Vultus, 19).

 

Regressa sem medo para experimentar a ternura sanadora e reconciliadora de Deus! Deixa que o Senhor cure as feridas do pecado e cumpra a profecia feita a nossos pais: «Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração da pedra e vos darei um coração de carne» (Ez 36, 26).

 

Para, olha e regressa!

 

MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA FRANCISCO PARA O XXVI DIA MUNDIAL DO DOENTE

(11 DE FEVEREIRO DE 2018)

 

 

Mater Ecclesiae: «“Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!”

E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a como sua»

(Jo 19, 26-27)

 

 

Queridos irmãos e irmãs!

 

O serviço da Igreja aos doentes e a quantos cuidam deles deve continuar, com vigor sempre renovado, por fidelidade ao mandato do Senhor (cf. Lc 9, 2-6, Mt 10, 1-8;Mc 6, 7-13) e seguindo o exemplo muito eloquente do seu Fundador e Mestre.

Este ano, o tema do Dia do Doente é tomado das palavras que Jesus, do alto da cruz, dirige a Maria, sua mãe, e a João: «“Eis o teu filho! (…) Eis a tua mãe!” E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-A como sua» (Jo 19, 26-27).

 

1.     Estas palavras do Senhor iluminam profundamente o mistério da Cruz. Esta não representa uma tragédia sem esperança, mas o lugar onde Jesus mostra a sua glória e deixa amorosamente as suas últimas vontades, que se tornam regras constitutivas da comunidade cristã e da vida de cada discípulo.

Em primeiro lugar, as palavras de Jesus dão origem à vocação materna de Maria em relação a toda a humanidade. Será, de uma forma particular, a mãe dos discípulos do seu Filho e cuidará deles e do seu caminho. E, como sabemos, o cuidado materno dum filho ou duma filha engloba tanto os aspetos materiais como os espirituais da sua educação.

O sofrimento indescritível da cruz trespassa a alma de Maria (cf. Lc 2, 35), mas não a paralisa. Pelo contrário, lá começa para Ela um novo caminho de doação, como Mãe do Senhor. Na cruz, Jesus preocupa-Se com a Igreja e toda a humanidade, e Maria é chamada a partilhar esta mesma preocupação. Os Atos dos Apóstolos, ao descrever a grande efusão do Espírito Santo no Pentecostes, mostram-nos que Maria começou a desempenhar a sua tarefa na primeira comunidade da Igreja. Uma tarefa que não mais terá fim.

 

2.     O discípulo João, o amado, representa a Igreja, povo messiânico. Ele deve reconhecer Maria como sua própria mãe. E, neste reconhecimento, é chamado a recebê-La, contemplar n’Ela o modelo do discipulado e também a vocação materna que Jesus Lhe confiou incluindo as preocupações e os projetos que isso implica: a Mãe que ama e gera filhos capazes de amar segundo o mandamento de Jesus. Por isso a vocação materna de Maria, a vocação de cuidar dos seus filhos, passa para João e toda a Igreja. Toda a comunidade dos discípulos fica envolvida na vocação materna de Maria.

 

3.     João, como discípulo que partilhou tudo com Jesus, sabe que o Mestre quer conduzir todos os homens ao encontro do Pai. Pode testemunhar que Jesus encontrou muitas pessoas doentes no espírito, porque cheias de orgulho (cf. Jo 8, 31-39), e doentes no corpo (cf. Jo 5, 6). A todos, concedeu misericórdia e perdão e, aos doentes, também a cura física, sinal da vida abundante do Reino, onde se enxugam todas as lágrimas. Como Maria, os discípulos são chamados a cuidar uns dos outros; mas não só: eles sabem que o Coração de Jesus está aberto a todos, sem exclusão. A todos deve ser anunciado o Evangelho do Reino, e a caridade dos cristãos deve estender-se a todos quantos passam necessidade, simplesmente porque são pessoas, filhos de Deus.

 

4.     Esta vocação materna da Igreja para com as pessoas necessitadas e os doentes concretizou-se, ao longo da sua história bimilenária, numa série riquíssima de iniciativas a favor dos enfermos. Esta história de dedicação não deve ser esquecida. Continua ainda hoje, em todo o mundo. Nos países onde existem sistemas de saúde pública suficientes, o trabalho das congregações católicas, das dioceses e dos seus hospitais, além de fornecer cuidados médicos de qualidade, procura colocar a pessoa humana no centro do processo terapêutico e desenvolve a pesquisa científica no respeito da vida e dos valores morais cristãos. Nos países onde os sistemas de saúde são insuficientes ou inexistentes, a Igreja esforça-se por oferecer às pessoas o máximo possível de cuidados da saúde, por eliminar a mortalidade infantil e debelar algumas pandemias. Em todo o lado, ela procura cuidar, mesmo quando não é capaz de curar. A imagem da Igreja como «hospital de campo», acolhedora de todos os que são feridos pela vida, é uma realidade muito concreta, porque, nalgumas partes do mundo, os hospitais dos missionários e das dioceses são os únicos que fornecem os cuidados necessários à população.

 

5.     A memória da longa história de serviço aos doentes é motivo de alegria para a comunidade cristã e, de modo particular, para aqueles que atualmente desempenham esse serviço. Mas é preciso olhar o passado sobretudo para com ele nos enriquecermos. Dele devemos aprender: a generosidade até ao sacrifício total de muitos fundadores de institutos ao serviço dos enfermos; a criatividade, sugerida pela caridade, de muitas iniciativas empreendidas ao longo dos séculos; o empenho na pesquisa científica, para oferecer aos doentes cuidados inovadores e fiáveis. Esta herança do passado ajuda a projetar bem o futuro. Por exemplo, a preservar os hospitais católicos do risco duma mentalidade empresarial, que em todo o mundo quer colocar o tratamento da saúde no contexto do mercado, acabando por descartar os pobres. Ao contrário, a inteligência organizativa e a caridade exigem que a pessoa do doente seja respeitada na sua dignidade e sempre colocada no centro do processo de tratamento. Estas orientações devem ser assumidas também pelos cristãos que trabalham nas estruturas públicas, onde são chamados a dar, através do seu serviço, bom testemunho do Evangelho.

 

6.     Jesus deixou, como dom à Igreja, o seu poder de curar: «Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: (...) hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados» (Mc 16, 17.18). Nos Atos dos Apóstolos, lemos a descrição das curas realizadas por Pedro (cf. At 3, 4-8) e por Paulo (cf. At 14, 8-11). Ao dom de Jesus corresponde o dever da Igreja, bem ciente de que deve pousar, sobre os doentes, o mesmo olhar rico de ternura e compaixão do seu Senhor. A pastoral da saúde permanece e sempre permanecerá um dever necessário e essencial, que se há de viver com um ímpeto renovado começando pelas comunidades paroquiais até aos centros de tratamento de excelência. Não podemos esquecer aqui a ternura e a perseverança com que muitas famílias acompanham os seus filhos, pais e parentes, doentes crónicos ou gravemente incapacitados. Os cuidados prestados em família são um testemunho extraordinário de amor pela pessoa humana e devem ser apoiados com o reconhecimento devido e políticas adequadas. Portanto, médicos e enfermeiros, sacerdotes, consagrados e voluntários, familiares e todos aqueles que se empenham no cuidado dos doentes, participam nesta missão eclesial. É uma responsabilidade compartilhada, que enriquece o valor do serviço diário de cada um.

 

7.     A Maria, Mãe da ternura, queremos confiar todos os doentes no corpo e no espírito, para que os sustente na esperança. A Ela pedimos também que nos ajude a ser acolhedores para com os irmãos enfermos. A Igreja sabe que precisa duma graça especial para conseguir fazer frente ao seu serviço evangélico de cuidar dos doentes. Por isso, unamo-nos todos numa súplica insistente elevada à Mãe do Senhor, para que cada membro da Igreja viva com amor a vocação ao serviço da vida e da saúde. A Virgem Maria interceda por este XXVI Dia Mundial do Doente, ajude as pessoas doentes a viverem o seu sofrimento em comunhão com o Senhor Jesus, e ampare aqueles que cuidam delas. A todos, doente s, agentes de saúde e voluntários, concedo de coração a Bênção Apostólica.

 

Vaticano, 26 de novembro – Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo – de 2017.

Franciscus

 

MAIS UM ADVENTO

 

Neste domingo, dia 3, estaremos abrindo em nossa vida Litúrgica-pastoral, mais um Advento, palavra que significa “Chegada”.

                O Advento tem duas etapas. A primeira é constituída de três semanas, e a segunda, apenas uma, a partir do dia 17 de dezembro.

                A primeira etapa nos prepara para fatos que ainda irão ocorrer, o que chamamos de “Parusia”, ou seja, a segunda vinda de Jesus, não mais na carne humana, mas em sua glória.

                A segunda etapa nos recorda o Natal de Jesus, quando ele veio na carne humana, pobre, em Belém. Esta segunda etapa nos dá tranquilidade, pois sabemos que esperar não é nada fácil. Porém, sabemos quem e porque aguardamos.

                Sendo assim, a árvore de Natal, o presépio, deveriam ser montados apenas a partir da segunda quinzena de dezembro, caso o contrário poderemos trair a espiritualidade própria do Advento, que nos faz vigiar, confiar e nos preparar cada vez mais para o encontro definitivo com Jesus e seu Reino.

                Também com o Advento iniciamos mais um ano litúrgico. Este será o “Ano B” (temos o ano A e o C, quando, respectivamente são proclamados aos domingos os evangelhos de Mateus e Lucas). Agora é a vez de Marcos.

                Que todos possam aproveitar esse tempo forte e singular em nossa Igreja. Possamos participar da Novena de Natal e  de uma consciente e frutuosa confissão sacramental.

 

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO

Excelência Reverendíssima,

Cumpro o dever de transmitir a Vossa Excelência o seguinte telegrama:

 

"O Papa Francisco , querendo associar - se á Igreja no Brasil que no dia 26 de novembro de 2017 inaugura o Ano do Laicato, dirige - se a cada um dos leigos e leigas brasileiros, animando - lhes a que se sintam interpelados pela chamada a ser protagonistas da "nova saída missionária" que Deus pede á sua Igreja( cf. Evangelii gaudium,20). Isso significa, em primeiro lugar, tomar consciência de que " não podemos ficar encerrados(...) na nossa instituição paroquial ou na nossa instituição diocesana,quando há tanta gente esperando o Evangelho! Mas sair... enviados. Não se trata simplesmente de abrir a porta para que venham, para acolher, mas de sair porta fora, para procurar e encontrar"( Homilia durante a JMJ no Rio de Janeiro,27/07/2013). De modo concreto, os leigos através de sua consagração pelo Batismo e Confirmação, tem como missão particular " a transformação das diversas terrenas para que toda a  atividade humana seja transformada pelo Evangelho"( Evangelii gudium, 201). E , nesse  momento particular da história do Brasil, é preciso que os cristãos

assumam sua responsabilidade de ser o fermento de uma sociedade renovada, onde a corrupção e a desigualdade deem lugar á justiça e solidariedade. Por isso, como confirmação de tais propósitos que confia á Nossa Senhora Aparecida, o Papa Francisco envia a todos fiéis cristãos do Brasil a Bênção Apostólica, pedindo que não deixem de rezar por ele.