5º Assembleia Diocesana de Pastoral

Objetivo Geral da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil

2019-2023:

EVANGELIZAR

no Brasil cada vez mais urbano,

pelo anúncio da Palavra de Deus,

formando discípulos e discípulas de Jesus Cristo,

em comunidades eclesiais missionárias,

à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

cuidando da Casa Comum

e testemunhando o Reino de Deus,

rumo à plenitude.

Indicações Pastorais do Regional Leste 2¹ para o quadriênio

2020-2024:

No pilar da Palavra:

1. Promover a animação bíblica da ação pastoral, através da leitura orante da Sagrada Escritura nos grupos eclesiais e na Celebração da Palavra;

 

2. Oferecer formação centralizada na Palavra de Deus, que proporcione um caminho de iniciação à vida cristã, num processo contínuo, partindo do anúncio (querigma), culminando com o testemunho e o compromisso missionário.

No pilar do Pão:

 

1. Fortalecer e incentivar a Pastoral Litúrgica por meio de uma formação mistagógica, valorizando as expressões genuínas da piedade popular e a realidade do Povo de Deus, respondendo aos desafios da cultura urbana;

 

2. Elaborar subsídios, em vista da formação litúrgica por meio de cartilhas e mídias para TV, redes sociais e canais de internet, contemplando a relação entre liturgia e evangelização, enfatizando o canto litúrgico e a arte sacra.

No pilar da Caridade:

1. Motivar os cristãos leigos e leigas, através da articulação dos Conselhos, ao engajamento social na luta pelos direitos humanos, na defesa da ecologia integral, na promoção da cultura da paz e na proposição e acompanhamento das políticas públicas;

 

2. Favorecer o encontro pessoal com Jesus Cristo levando as comunidades eclesiais missionárias, enquanto Igreja Samaritana, ao compromisso com a cultura da vida, da caridade e da paz, através de ações sociotransformadoras.

 

No pilar da Missão:

 

1. Investir nos diversos Conselhos Missionários e na missão ad gentes, para dinamizar as Comunidades Eclesiais Missionárias e garantir sua identidade;

 

2. Despertar a consciência missionária das comunidades, a fim de que valorizem, como espaços de missão, as periferias geográficas e existenciais, com especial atenção aos hospitais, escolas, presídios/outros lugares de detenção e universidades, priorizando a pessoa e seu acompanhamento espiritual e social.

INTRODUÇÃO

1. A Diocese da Campanha é a “porção do povo de Deus”² presente no Sul de Minas Gerais, desde a sua criação pelo Papa São Pio X, em 8 de setembro de 1907³ . Atualmente, ela é composta por 71 paróquias, 1 região pastoral e 1 santuário diocesano, espalhadas em seus 49 municípios, organizadas em 7 foranias, congregando mais de 840 mil fiéis⁴ , em cerca de 1.000 comunidades eclesiais, a serviço das quais estão uma centena de presbíteros diocesanos, quase duas dezenas de presbíteros religiosos, dois diáconos permanentes, um bispo emérito e o bispo diocesano.

 

2. Brilham no caminho pastoral percorrido por esta Igreja Local muitos luminares de santidade: a beata Nhá Chica (Francisca Paula de Jesus – 1808-1895), leiga⁵ ; o beato Pe. Victor (Francisco de Paula Victor – 1827-1905), presbítero⁶  ; a serva de Deus Madre Teresa Margarida do Coração de Maria (1915-2005), religiosa carmelita descalça, e o servo de Deus Dom Othon Motta (1913-1985), bispo, além de muitos outros santos anônimos, leigos, padres, religiosos e bispos, que viveram e vivem ao pé das nossas portas⁷, fazendo desta diocese uma “terra de santos, testemunhas credíveis a misericórdia de Deus entre nós”⁸.

 

3. Em seus mais de cem anos de história, grandes homens de Deus e da Igreja pastorearam o rebanho de Cristo neste rincão sul mineiro; sacerdotes de grande santidade, sabedoria, entrega e oblação doaram suas vidas e marcaram a história de pessoas, famílias e cidades inteiras dando-lhes muito mais que ouro e prata⁹ ; religiosos e religiosas fermentaram com sua vida consagrada as mais diversas comunidades cristãs de nossa diocese; leigos e leigas comprometidos com o Evangelho do Reino viveram em plenitude a vida cristã recebida no Batismo, dando vida e ação aos processos de evangelização, pastoral e transformação social em todas as comunidades, desde os contrafortes da Serra da Mantiqueira até as margens do Lago de Furnas, nas grandes e promissoras cidades e nas mais distantes comunidades rurais.

 

4. Esta história de lutas e vitórias, em que não faltaram tropeços e derrotas, não começou nem terminará conosco. Permanece e continua em nós, chamados, nesta escola de santidade, a prosseguir a obra do Evangelho, respondendo aos apelos dos homens e mulheres de hoje, oferecendo com nosso trabalho pastoral o mais puro alimento da Palavra e do Pão. Este transborda na Caridade e na Missão que transformam a realidade no Reino desejado por Deus, inaugurado em Jesus Cristo, e que hoje requer de nós comprometimento espiritual e ação transformadora para que se realize de modo concreto e palpável entre nós, na dinâmica do Espírito.

 

5. No pós-Concílio Vaticano II (1962-1965), a Diocese da Campanha realizou cinco grandes momentos de revisão e planejamento do caminho pastoral que percorreu. A 1ª Assembleia Diocesana de Pastoral aconteceu há 30 anos, em 1989, sob o pastoreio de Dom Tarcísio Ariovaldo Amaral, C.Ss.R., e foi um convite para uma “Caminhada para a Unidade”. Nessa ocasião foram fundados o Conselho Diocesano de Pastoral (CODIPA) e o primeiro curso de formação teológica para leigos e leigas, chamado então Centro Diocesano de Pastoral (CEDIPA). Nunca mais a Diocese da Campanha descuidou da formação do laicato, buscando e atualizando formas de oferecê-la ora no centro, ora nas diversas regiões da Diocese. Atualmente a Escola Diocesana de Teologia (EDT) dá honroso seguimento a essa história de formação do laicato.

 

6. Em 1993, Dom Aloísio Roque Opperman, SCJ, convocou uma Assembleia Extraordinária e na pauta constou a necessária conscientização acerca da importância do dízimo e a primeira versão do Diretório dos Sacramentos, então promulgado, dada a importância da unidade da Igreja Local na administração dos sacramentos. Em 2009, Dom Diamantino Prata de Carvalho, OFM, publicou na Quinta-Feira Santa, a segunda versão do Diretório, revisto e ampliado após longo trabalho, intitulado agora Diretório Pastoral Litúrgico-Sacramental (DPLS). Na última assembleia, foi apelo unânime que o Diretório fosse revisto a fim de que houvesse um amplo compromisso diocesano de cumpri-lo. Este trabalho está em andamento.

 

7. A 2ª Assembleia Diocesana de Pastoral aconteceu em 1996, ainda durante o pastoreio de Dom Roque. O desafio continuava: era preciso empenhar-se “Construindo a Unidade”. O 2º Plano Diocesano de Pastoral elegeu como prioridades o mundo da família, o mundo da juventude e o mundo da ação social. Foi, porém, no triênio preparatório para o primeiro centenário de criação da nossa diocese, que elas foram desenvolvidas. Nesse período, vivenciamos o Ano Diocesano da Família (2004), o Ano Diocesano da Juventude (2005) e o Ano Diocesano da Ação Social (2006), quando foi criado o Conselho Diocesano de Ação Social (CODIAS), conselho que reúne todos os coordenadores e assessores das Pastorais Sociais de nossa diocese, para animar e dinamizar a ação sociotransformadora na construção do Reino de Deus entre nós.

 

8. A 3ª Assembleia Diocesana de Pastoral realizou-se dentro dos festejos do primeiro centenário de criação da Diocese, em 2007. “Igreja da Campanha, tecendo rede de comunidades, na força da Palavra, enviada em Missão” foi o seu lema e expressão de suas prioridades, descritas no 3º Plano Diocesano de Pastoral: a paróquia como rede de comunidades, a centralidade da Palavra e a missão. Uma rica experiência foi vivida na diocese, a partir de 2010, com as Santas Missões Populares (SMP), que mobilizaram clero, religosos e leigos em torno de um projeto comum, abraçado como nenhum outro.

 

9. A 4ª Assembleia Diocesana de Pastoral aconteceu na transição do pastoreio de Dom Diamantino para Dom Pedro Cunha Cruz, nosso bispo atual. Sua culminância deu-se em março de 2016. As prioridades eleitas em assembleia, que nortearam a redação do 4º Plano Diocesano de Pastoral de Conjunto (IV PDPC) foram setor família, dimensão bíblico-catequética e formação dos leigos. Além dessas prioridades, a assembleia deu três encaminhamentos práticos: a implantação do diaconato permanente, a elaboração de materiais e subsídios para a evangelização e a revisão e compromisso de cumprimento do DPLS10.

 

10. Chegamos assim ao caminho da 5ª Assembleia Diocesana de Pastoral, que percorremos com o tradicional método pastoral da Igreja na América Latina: ver – iluminar – agir – celebrar. VER a realidade com os olhos da fé; ILUMINAR esta mesma realidade com a luz da Palavra de Deus que se concretiza nas orientações atuais da Igreja; AGIR: o que faremos, assim iluminados, para transformar essa realidade em que vivemos em algo mais parecido ao Reino desejado por Deus? CELEBRAR o caminho percorrido com a graça de Deus, que nos assiste em todo momento. Eis as conclusões destes passos, organizadas e oferecidas ao Povo de Deus de nossa Diocese da Campanha:

Capítulo I

- VER –

“Vai mais para o fundo”

(Lc 5,4)

 

11. No caminho desta 5ª Assembleia Diocesana de Pastoral, o primeiro passo dado foi olhar, marcado pelo compromisso que nasce da fé em Jesus Cristo, para a nossa realidade socioeclesial, a fim de encontrar luzes e sombras, riquezas, desafios e demandas: luzes e riquezas para insistir e prosseguir com o coração cheio de ação de graças; sombras, desafios e demandas para serem iluminadas pelo Evangelho em vista de que o nosso agir pastoral contribua efetivamente para a transformação da realidade no Reino de Deus, que começa aqui e encontrará sua plenitude nos céus.

 

12. O VER aconteceu nas reuniões dos Conselhos Pastorais Paroquiais (CPPs) em maio de 2019, das coordenações diocesanas de ministérios, pastorais, movimentos, associações e organismos, entre junho e setembro de 201911, e das casas de formação presbiteral das etapas do discipulado e configuração12 , sob a guia de um roteiro comum, elaborado pelo Grupo de Assessores Diocesanos (GRADI) junto à Coordenação Diocesana de Pastoral. Desses encontros pudemos colher diversas reflexões e fatos que expressam a realidade das comunidades que formam a Diocese da Campanha. Assim, conhecemos o que o nosso povo pensa e fala sobre a própria caminhada pastoral no momento presente.

 

Luzes que nos enriquecem de alegria e esperança

 

13. Uma grande luz de nossa caminhada pastoral é a formação dos leigos. São muitas as iniciativas que buscam abranger desde uma formação inicial até aspectos específicos da vida cristã. Merecem destaque a Escola Diocesana de Teologia, com seus cursos de Iniciação Teológica para Lideranças Paroquiais e de Aprofundamento; a Escola Diocesana de Liturgia e Música Litúrgica; a Escola Bíblico-Catequética Diocesana Dom José Costa Campos; a presença do Instituto Nacional de Pastoral Familiar (INAPAF) na capacitação dos agentes; os encontros de formação para a Campanha da Fraternidade; a capacitação técnica, humana e espiritual dos funcionários da Diocese, especialmente durante o ano do laicato (2017-2018). Duas outras iniciativas que extrapolam os limites da diocese foram ainda citadas: a caminhada conjunta da Província Eclesiástica de Pouso Alegre13, no projeto “Viver em Cristo” de iniciação cristã com adultos e a realização anual da Semana Provincial de Liturgia.

 

14. O engajamento responsável e o trabalho destes muitos leigos e leigas nas pastorais – tanto nas paróquias como nas coordenações diocesanas –, nos conselhos diocesanos, paroquiais e comunitários e também na vida social e política é, sem dúvida, uma grande luz de nossa ação pastoral.

 

15. Outro grande luminar da nossa realidade nos últimos tempos foi a criação, valorização e dinamização das foranias. Essas instâncias eclesiais tornaram a articulação pastoral do clero, dos religiosos e dos leigos mais próxima, acessível e coordenada, nas figuras dos vigários forâneos e representantes do laicato nas foranias.

 

16. No Setor Família, com alegria, percebemos que resplandecem luzes, dentre as quais foram destacadas a reestruturação da Pastoral Familiar; a ação e o engajamento resultantes dos trabalhos desenvolvidos pelo Encontro de Casais com Cristo (ECC), Encontro de Jovens com Cristo (EJC) e Encontro de Adolescentes com Cristo (EAC); a abertura para a realização do Encontro de Casais de Segunda União com o Bom Pastor; as ações desenvolvidas por ocasião da Semana Nacional da Família e a nova formatação da catequese prématrimonial.

 

17. Na Dimensão Bíblico-Catequética foram reconhecidos como luzes o já citado projeto Viver em Cristo de iniciação cristã com adultos14; a proposta de uma Catequese Batismal de Inspiração Catecumenal que dê unidade à preparação para o Batismo na Diocese; o subsídio para os Encontros de Catequese e Família de Mãos Dadas; a produção de subsídios de evangelização como os círculos bíblicos e a novena de Natal em nossa própria realidade.

 

18. Na Dimensão Litúrgica brilham a produção dos subsídios Formação Litúrgica em Comunidade, o Hinário Litúrgico Diocesano e a produção do folheto litúrgico próprio O Dia do Senhor, de acordo com a nossa realidade; a orientação, a formação e o acompanhamento oferecidos aos nossos agentes da Pastoral Litúrgica, em seus diversos ministérios, dentre os quais destacou-se o incentivo que se dá atualmente ao ministério extraordinário dos acólitos.

 

19. A implantação do diaconato permanente, com a ordenação dos dois primeiros diáconos permanentes de nossa diocese15 e com a atuação da Escola Diaconal São Lourenço Mártir a formar a primeira turma de diáconos permanentes, é um luzeiro solicitado na última assembleia e que já brilha em nosso meio.

20. Outra luz que diversas comunidades destacaram é a ação pastoral dos seminaristas nas paróquias e comunidades, nos finais de semana e as missões de férias organizadas pelo Conselho Missionário dos Seminaristas (COMISE). Trata-se de uma ação pastoral qualificada que enriquece nossas paróquias. Também a experiência missionária na diocese-irmã de Bragança do Pará (PA) aporta enorme riqueza à formação dos nossos futuros presbíteros, formação essa muito bem avaliada.

 

21. No campo da comunicação despontaram luzes que ainda precisam ser alimentadas e articuladas: a atualização permanente do site da diocese

e da sua página no Facebook17 , o que muito facilita o acesso à informação em tempo real, bem como a revitalização do Jornal A Voz Diocesana. Também a própria Pastoral da Comunicação dá sinais de alento e alimenta a esperança de uma maior articulação dos serviços de comunicação pastoral em nossa Diocese.

 

22. Por fim, mereceram destaque no olhar do nosso povo a organização administrativa da Diocese, que possibilita o aporte financeiro às pastorais e as experiência vividas no Ano do Laicato (2017-2018).

 

Sombras que nos desafiam a superar com audácia e coragem.

 

23. Por outro lado, as sombras e os desafios que rondam a nossa Diocese são os mesmos já identificados nas assembleias anteriores e que são comuns a toda a Igreja no mundo atual.

 

24. Percebe-se que ainda não há unidade de ação entre paróquias e entre as forças vivas da diocese, o que gera situações e fatos que testemunham uma recorrente e não administrada falta de unidade, uma vez que não se programa uma ação conjunta para solucionar a questão desde a raiz.

 

25. O individualismo, tão presente na sociedade atual, aparece na Igreja através da falta de unidade, de compromisso, de pessoas disponíveis para o trabalho pastoral nas paróquias, no interesse mercantilista por aquilo que a Igreja oferece (sacramentalismo), na dificuldade de trabalhar em comunidade e no excesso de formalismo, que dificulta a acolhida de novos membros em nossas comunidades e forças vivas.

 

26. O comodismo traz resistência ao novo, produz inércia de pessoas, comunidades e pastorais, gera o esmorecimento das pastorais sociais, que são uma resposta da Igreja às necessidades mais concretas do mundo atual e, no entanto, são vistas de forma pejorativa e até preconceituosa, ignorando as consequências sociais da fé.

27. O personalismo18 impede processos necessários de amadurecimento. Ele existe no clero: muda o padre, muda tudo; tudo começa do zero. Com isto, nota-se, em muitos lugares, um clero desmotivado e que desmotiva o laicato. Existe, todavia, também no laicato: em “coordenações eternas” que, para manter o posto, dificultam, conscientemente ou não, a chegada de novos membros competentes e hábeis para a sucessão. Padres e leigos não se empenham em trazer de volta os afastados e em conhecer os motivos que os distanciaram.

 

28. A secularização potencializa o individualismo e o comodismo, afastando para longe das pessoas, famílias e grupos sociais a tão necessária referência a Deus que gera compromisso com as causas verdadeiramente humanas, pastorais e sociais.

 

29. O clericalismo entranhado em nossa cultura freia o incipiente protagonismo dos leigos e leigas. Muitas vezes, suas vozes sequer são ouvidas. Também freia o trabalho pastoral o desconhecimento dos planos de pastoral e das demais diretrizes diocesanas, seja devido à rotatividade e desinteresse das lideranças, seja em função do descuido dos seus pastores.

 

30. Nota-se um esfriamento na participação dos fiéis na Sagrada Liturgia, graças a um engessamento dos ritos, a um predomínio da beleza sobre a participação ativa, plena e consciente requerida pelo Concílio Vaticano II e a um descompasso entre a liturgia vivida nas comunidades e aquelas celebradas nos eventos diocesanos.

 

31. A grande extensão geográfica da nossa Diocese19 força a centralização dos encontros de formação. A diversidade ambiental e cultural de nossa Igreja Particular, desde as pequenas comunidades rurais aos grandes centros urbanos, exige uma maior adaptabilidade frente às diversas realidades.

 

32. Neste imenso contexto, surgem pessoas e grupos de viés ultraconservador promovendo práticas devocionais anacrônicas, incitando a uma vida litúrgica apartada da comunidade e muitas vezes semeando a discórdia, a divisão, a desobediência aos ministros da Igreja, a mentira e tantos outros contravalores quer seja no convivio interpessoal, quer seja nas redes sociais, causando confusão entre os mais simples.

 

33. Há um excesso de iniciativas, atividades, encontros, reuniões que, aliado à falta de pessoal, sobrecarrega aqueles que se comprometem. Isso aparece como falta de interesse nas oportunidades de formação que são oferecidas ou no investimento em leigos que não são capazes de multiplicar o saber aprendido.

 

34. A falta de planejamento e articulação entre as diversas coordenações diocesanas, refletida na falta de coesão do Conselho Diocesano de Pastoral (CODIPA), o excesso de pastorais e movimentos, que às vezes competem entre si ao invés de buscar um objetivo comum, a existência de grupos fechados, a ausência dos jovens no engajamento pastoral e a necessidade de formar novas lideranças geram um descompasso no trabalho pastoral.

 

35. Falta consciência de coparticipação através do dízimo, muitas vezes incentivado somente como contribuição financeira e não trabalhado nas suas demais dimensões (religiosa, missionária, eclesial e caritativa), o que dificulta o compromisso e consequentemente a posse de recursos a serem investidos nos trabalhos pastorais e na formação de lideranças.

 

36. Percebe-se também, nos últimos anos, uma diminuição da presença das religiosas consagradas em nossa Diocese e, entre as que permanecem, um distanciamento das atividades pastorais, em parte devido à desarticulação do núcleo diocesano da CRB (Conferência dos Religiosos do Brasil).

 

Demandas que exigem uma resposta decisiva e fiel ao Evangelho

 

37. As demandas trazem expressas em si a nova realidade social que estamos experimentando: na família, os casais em 2ª união, as pessoas em uniões homoafetivas, os adolescentes sem acompanhamento; na sociedade, a crescente dependência química, a violência, a injustiça social; na juventude, uma nova metodologia evangelizadora que leve ao engajamento eclesial e social; nas paróquias, requer-se um olhar especial para as comunidades rurais, a renovação das lideranças, atenção ao enfraquecimento dos setores missionários, a valorização e dinamização dos conselhos paroquiais e comunitários, ainda inexistentes em algumas realidades; na diocese, capacitação e compromisso de unidade no planejamento pastoral.

 

38. A modernização da comunicação a serviço da evangelização é uma demanda: é preciso aprender a utilizar de forma consistente e contínua as novas mídias.

 

39. Outra demanda diz respeito à unidade pastoral, que agregue todas as forças vivas numa caminhada conjunta, expressão da uníssona voz da única Igreja. É preciso adquirir uma postura comum que ajude na continuidade da dinâmica pastoral; buscar linhas conjuntas de ação que conciliem as iniciativas pastorais e as urgências reais da evangelização; aprender a unificar atividades, a compartilhar o trabalho evangelizador em rede, facilitando a participação de todos e evitando o excesso de atividades sem sentido que não produzem os frutos esperados.

 

40. No âmbito das pastorais sociais, requer-se uma atenção aos desafios atuais da migração e da violência doméstica (abusos sexuais, feminicídios e suicídios) e da violência no campo.

 

41. A Pastoral do Dízimo precisa ser dinamizada na unidade diocesana, considerando todas as suas dimensões, através de material de linguagem simples e acessível às diversas comunidades.

 

42. No Setor Família, é preciso continuar buscando a integração entre as várias forças vivas que atuam junto às famílias, para que em conjunto, desenvolvam um trabalho pastoral efetivo que responda às necessidades das famílias em suas configurações concretas.

 

43. Acerca da formação e articulação do laicato, pede-se a descentralização de alguns cursos e encontros, para facilitar a participação dos fiéis de paróquias mais distantes do centro, priorizando o nível forâneo. Quando nos falta clareza, é preciso continuar discernindo

 

44. Três realidades aparecem no olhar de nossas comunidades, ora como luz ora como sombra; por isso, desejamos aprofundar o discernimento eclesial sobre elas: são as missas de cura e libertação, da juventude, da saúde, do Santíssimo, da família, da vitória, da restauração, do avivamento etc. Se por um lado elas atraem muitos fiéis que nelas se sentem bem e conseguem aprumar a própria vida, podendo assim configurar um processo de acolhida para quem entra ou volta à Igreja, por outro, excedem no sentimentalismo intimista, desfiguram a liturgia da Igreja com homilias artificiais, paralelas à homilética litúrgica, distantes da proposta da Palavra, mais próximas à prática da autoajuda, com cantos alheios ao tempo litúrgico, mais adequados aos ambientes neopentecostais, com a introdução de momentos estranhos à ação litúrgica, chegando a fazer aquilo que é expressamente proibido pela Diocese, o chamado “passeio com o Santíssimo”20. Com a publicação do DPLS, em 2009, elas haviam praticamente desaparecido da prática celebrativa de nossa diocese, mas atualmente reaparecem com força.

 

45. Quase pelos mesmos motivos aparece como luz a multiplicação de movimentos de espiritualidade. Doutra feita, deve-se também a isto, como sombra, o esmorecimento de pastorais fundamentais, por falta de pessoas que preferem mudar de posto ou não conseguem suportar todas as exigências feitas.

 

46. Nessa mesma linha, aparece a terceira realidade: o surgimento descontrolado das novas comunidades com seus exóticos nomes e carismas, alheios ao discernimento hierárquico da Igreja, em total falta de comunhão eclesial, quer na paróquia, na diocese e até mesmo com o Romano Pontífice. Tornam-se centros de vida religiosa muito procurados, porém à parte da vida eclesial.

 

47. Muitas são as luzes, sombras e demandas elencadas, no entanto, é fundamental discernir com clareza a Igreja que queremos e devemos ser, de acordo com a vontade de Deus, para, só então, decidir o que vamos fazer. É preciso, para tanto, iluminar esta caminhada feita de escuta com o Santo Evangelho, expresso para nós nas diretrizes da Igreja, ecoadas pelo magistério universal, latino-americano e brasileiro.

Capítulo II

- ILUMINAR -

"Então constituiu doze para estarem com ele

e para enviá-los a anunciar”

(Mc 3,14).

 

48. No caminho da 5ª Assembleia Diocesana de Pastoral, o segundo passo foi o esforço de iluminar a nossa realidade com a luz do Evangelho, traduzido para nós, hoje, nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2019-202321 , aprovadas e publicadas pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na sua 57ª Assembleia Geral, em Aparecida/SP, em 06 de maio de 2019, que é “uma das expressões mais significativas da colegialidade e da missionariedade da Igreja no Brasil” (DGAE 2019-2023, 2).

 

49. A etapa do ILUMINAR aconteceu em novembro de 2019, em dois momentos. Ela se deu primeiramente, no encontro de formação permanente do clero, em Passa Quatro/MG – com a assessoria do Revmo. Mons. Antônio Luiz Catellan (assessor da comissão de doutrina da CNBB). O segundo momento aconteceu no encontro dos delegados paroquiais e das forças vivas de nossa diocese, em Três Corações/MG – com a assessoria do Revmo. Pe. Daniel Rochetti (assessor da comissão de animação missionária da CNBB). Em seguida, a Coordenação Diocesana de Pastoral e o seu Grupo de Assessores (GRADI) pôs-se a recolher, refletir e organizar as ideias e intuições colhidas nesses dois encontros.

 

50. Conforme afirmam nossos bispos, reunidos em conferência: “O tempo atual exige de todos nós a renovação de forças missionárias para bem cumprir a tarefa de anunciar a Palavra de Deus e, assim, promover a paz, superar a violência, construir pontes em lugar de muros, oferecer a misericórdia de Cristo Jesus como remédio para a vingança e reacender a luz da esperança para vencer o desânimo e as indiferenças. Essa é nossa vocação, pois somos discípulos missionários a anunciar o Reino de Deus até a plenitude” (DGAE 2019-2023, Apresentação).

 

A vida e a missão da Igreja

 

51. “Ide, pois, e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19). Essas palavras de Jesus, às vésperas de sua ascensão, expressam que a comunidade dos seguidores de Jesus foi escolhida, chamada e formada para missão. Ou seja, a Igreja brota da Trindade, de um Deus que é comunhão e missão, por isso nasce com identidade missionária, com apelo a ser exodal22 , peregrina, “em saída” (cf. EG 20-24).

 

52. Já no Primeiro Testamento, podemos perceber que nosso Deus é um Deus em movimento, quando ao se manifestar a Moisés, na sarça ardente, assim lhe diz: “Eu vi a humilhação do meu povo no Egito e ouvi seu clamor por causa da dureza dos feitores. Sim, eu conheço seu sofrimento. Desci para livrá-lo das mãos dos egípcios e fazê-los sair desta terra para uma terra boa e espaçosa...” (Ex 3, 7- 8). O Senhor vê, acompanha seu povo, sabe o que com ele se passa e põe-se a caminho com ele, indicando que a salvação é colocar-se em saída.

 

53. Na plenitude dos tempos, Deus nos enviou seu Filho. Como nos relata o apóstolo Paulo, “Jesus Cristo, existindo em condição divina, não fez do ser igual a Deus uma usurpação, mas ele esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de escravo e tornando-se igual aos homens.” (Fl 2, 6-7). Por isso, Jesus é a expressão máxima da missionariedade de Deus. Ao assumir a humanidade, ainda no ventre de Maria, Jesus já se faz peregrino nas estradas da Judeia, promovendo saídas, gerando encontros (cf. Lc 1, 39-45). Passando pelo mundo fazendo o bem, Jesus se apresenta como pastor, alguém que caminha com seu rebanho (cf. Jo 10); como viajante, que socorre os feridos à beira da estrada (cf. Lc 10, 25-37); como o próprio Caminho, que nos leva ao Pai (cf. Jo 14,6). Os evangelhos nos narram a vida de Jesus como uma grande caminhada, uma grande visita missionária de Deus à humanidade, desde a Encarnação até a Ascensão.

 

54. Também a presença constante do Senhor entre nós é garantida mediante um envio: o envio do Espírito da Verdade. “Ora, o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14,26). E este Espírito enviado se manifesta em Pentecostes como vento forte, vento que abre portas e que impele os apóstolos a se colocarem em saída evangelizadora.

 

55. Neste sentido, o Decreto Ad Gentes, sobre a atividade missionária da Igreja, do Concílio Vaticano II, afirma: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na «missão» do Filho e do Espírito Santo23” (AG, 2). Isso recorda a nós, Igreja Diocesana da Campanha, e a toda a Igreja, nossa origem trinitária e nossa missão e nos provoca a assumir de maneira renovada e corajosa, nestes tempos atuais, a identidade de anunciadores, com o testemunho e a palavra, do projeto de Deus que já se realiza em nós, a fim de que sejamos, como Igreja, seu sacramento. Nossa realidade sul-mineira, no campo e na cidade, espera de nós o testemunho da fraternidade e da solidariedade como contributo para a construção de uma sociedade edificada sobre os valores do Evangelho.

 

56. Conscientes de que “a missão é o paradigma de toda a ação eclesial” (DGAE 2019-2023, 186), urge deixarmo-nos interpelar, como Igreja Local privilegiada pelo número e qualidade de suas vocações tanto leigas como ao ministério ordenado, a dinamizar com coragem o “intercambio além-fronteiras de discípulos e o revigoramento da experiência das Igrejas-Irmãs” (DGAE 2019- 2023, 103). Os bispos pedem com insistências: “precisamos fortalecer a consciência missionária de tal modo que a missão ad gentes seja aprofundada, assumida e fortalecida nas Igrejas Particulares” (DGAE 2019-2023, 193). Uma audaciosa experiência de envio de leigos, seminaristas, diáconos e presbíteros para as dioceses mais carentes, expressará nossa gratidão a Deus e nossa comunhão e compromisso com a Igreja Universal, pois hoje a Diocese da Campanha não dá de sua pobreza, mas de sua riqueza.

 

Jesus, missionário do Pai. Nós, seus discípulos-missionários.

 

57. “Jesus Cristo, o missionário do Pai, veio anunciar a Boa-Nova do Reino de Deus, que instaurou, com a sua encarnação, vida, morte e ressurreição e é o 'Reino da verdade e da vida, Reino da santidade e da graça, Reino da justiça, do amor e da paz'24” (DGAE 2019-2023, 1).

 

58. A nossa missão parte do encontro pessoal com Cristo e a Ele conduz. A um só tempo, pela experiência do encontro com o Senhor, nos tornamos seus discípulos-missionários. Esta missão não se realiza por proselitismo, mas por atração. Como ensinam o Papa emérito Bento XVI e o Documento de Aparecida, “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou por uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”25 . “Missão é paixão por Jesus Cristo e simultaneamente paixão pelo seu povo” (EG, 268). “Somos todos convidados a renovar o encontro pessoal com Cristo e tomar a decisão de deixar-se encontrar por Ele, pois 'a vida que Jesus nos dá é uma história de amor, uma história de vida que quer se misturar com a nossa e criar raízes na terra de cada um'26 (…) Esse encontro provoca uma conversão de vida que leva ao discipulado, gera comunidade e impele a sair em missão27” (DGAE 2019-2013, 12).

 

59. Em um mundo de tantos encontros e desencontros, faz-se necessário que um encontro marcante como este seja precedido por um anúncio significativo. Não podemos mais supor que todos de fato conheçam Jesus, nem tampouco impor esse anúncio como quem simplesmente cumpre a obrigação de reproduzir um discurso pronto. É preciso dar a este anúncio o lugar de destaque em nossa ação pastoral e em nossa vida, fazer dele querigma. O primeiro anúncio não é um discurso sobre Jesus, mas um anúncio testemunhal e cativante da pessoa e missão do Filho de Deus que faz arder o coração de cada mulher e de cada homem ao qual se dirige, movendo-o a aderir à proposta de amor do Mestre.

 

60. Após esta adesão a Jesus, passamos a viver do jeito dele. “A vivência cotidiana do amor fraterno em comunidade constitui uma forma privilegiada de testemunho cristão” (…). A vida fraterna em pequenas comunidades – abertas, acolhedoras, misericordiosas, de intensa vida evangélica – constitui fundamento sólido para o testemunho de fé (DGAE 2019-2013, 24). “Os gestos de amor e solidariedade são eficazes para a credibilidade da experiência de fé e são notas distintivas da missão eclesial. A fé que 'não se traduz em ações, por si só está morta'28” (DGAE 2019-2013, 25).

 

A missionariedade da Igreja

 

61. “A missão da Igreja realiza-se, pois, mediante a atividade pela qual, obedecendo ao mandamento de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna atual e plenamente presente a todos os homens ou povos para os conduzir à fé, liberdade e paz de Cristo, não só pelo exemplo de vida e pela pregação mas também pelos sacramentos e pelos restantes meios da graça, de tal forma que lhes fique bem aberto caminho livre e seguro para participarem plenamente no mistério de Cristo” (AG, 5).

 

62. Desde os tempos apostólicos, o mandato missionário de Jesus foi cumprido com empenho por aqueles que abraçaram com radicalidade o seu Batismo. Os padres da Igreja e os grandes nomes da escolástica29 , através da preocupação em dar fundamentação à fé cristã, defendendo-a de erros, e também por meio do exercício acadêmico da Teologia, viveram a missão de anunciar o Evangelho.

 

63. Já no início da Modernidade, nossa realidade brasileira recebeu o primeiro anúncio do Evangelho de Jesus através do trabalho missionário de religiosos de diferentes ordens e congregações religiosas que vieram às Américas com os colonizadores europeus. Destacamos aqui o trabalho evangelizador de São José de Anchieta, “Apóstolo do Brasil”, missionário junto aos povos originários deste país. Em nossas terras sul-mineiras, como aconteceu na maior parte das regiões interioranas do Brasil, as visitas missionárias de religiosos lançaram as primeiras sementes da Palavra, que foram cultivadas especialmente pela piedade popular, vivida no seio das famílias e das irmandades religiosas. Nesse contexto, a missão era reconhecida como ação “ad gentes” e, por vezes, misturou-se demasiadamente com o processo colonizador, que carrega marcas dolorosas de descompromisso com a mensagem do Evangelho. O trabalho missionário era compreendido como o anúncio do Evangelho de Jesus àqueles povos distantes que nunca tinham ouvido falar dele e que, por vezes, eram vistos como hostis ao cristianismo.

 

64. Já em meados do século passado, num contexto bastante diferente do apresentado acima, diante de um mundo que embora tivesse ouvido falar de Jesus já não dava ouvidos à sua mensagem, o Concílio Vaticano II convidou toda a Igreja a revisitar sua identidade missionária. São Paulo VI ensinou-nos que “quando a Igreja toma consciência de si, torna-se missionária”. E ainda, que “as pessoas de hoje escutam com mais boa vontade as testemunhas do que os mestres, e se escutam os mestres é porque eles são testemunhas”. Fica claro que é somente a partir de Cristo que nossa vida e nossa missão fazem sentido, porque “não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados” (Evangelii Nuntiandi, 22).

 

65. Na caminhada da Igreja latino-americana neste terceiro milênio, a Conferência de Aparecida indicou-nos o caminho certo para nossa constante renovação eclesial: o caminho da missão. Esse caminho é proposta pessoal para cada batizado, chamado a ser discípulo missionário, mas é, ao mesmo tempo, proposta eclesial, pois a missão não é chamado apenas para alguns, mas para todos nós, em comunidade. A compreensão da missionariedade é ampliada e à figura do missionário além-fronteiras soma-se o discípulo-missionário e a comunidade missionária.

 

66. "A Diocese, em todas as suas comunidades e estruturas, é chamada a ser 'comunidade missionária'"30. Cada Diocese necessita fortalecer sua consciência missionária, saindo ao encontro dos que ainda não creem em Cristo no espaço de seu próprio território e respondendo adequadamente aos grandes problemas da sociedade na qual está inserida. Mas também, com espírito materno, é chamada a sair em busca de todos os batizados que não participam na vida das comunidades cristãs” (DAp, 168). Pela força do Batismo, somos chamados a ser discípulos missionários em uma Igreja Diocesana missionária, “em saída”.

 

67. Três grupos merecem atenção especial em nossa missão permanente:

 

  • Em primeiro lugar, os fiéis que participam de nossas comunidades cristãs, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do Pão de vida eterna e se comprometem com a ação pastoral da Igreja. Acrescentese também os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, mas não participam ativamente do culto e da vida da comunidade. Eles precisam ser alimentados e provocados pela Palavra para crescer sempre mais na fé e no compromisso cristão;

  • Em segundo lugar, os batizados que não vivem as exigências do seu Batismo e não se sentem membros da Igreja e, por isso, já não experimentam a consolação da fé. Qual mãe sempre solícita, a Igreja deve envidar esforços para que eles experimentem, a partir de um novo encontro com Jesus Cristo, uma conversão que lhes devolva a alegria da fé, vivida em comunidade e o desejo de se comprometerem com o Evangelho;

  • Em terceiro lugar, aqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre o recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus ou esforçam-se por serem pessoas do bem, de boa vontade. Partindo do princípio de que todos têm o direito de receber o Evangelho, temos o dever de anunciá-lo, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte maravilhoso, oferece um banquete de delícias (cf. EG, 14).

 

68. Contudo, nesses três grupos, de modo transversal, não podemos nos esquecer de nossa evangélica opção preferencial pelos pobres e sofredores. “Sem a opção preferencial pelos pobres, o anúncio do Evangelho – e este anúncio é a primeira caridade – corre o risco de não ser compreendido ou de afogar-se naquele mar de palavras que a atual sociedade da comunicação diariamente nos apresenta” (EG 199). Também destacamos os jovens e os idosos, que já foram destaques tanto em documentos do Episcopado Latino-americano, quanto em documentos do Papa Francisco.

 

69. O pontificado do Papa Francisco traz a missão como sua marca. É na perspectiva missionária que o papa nos convida a enxergar a identidade da Igreja e de todos nós batizados. A exortação apostólica Evangelii Gaudium, considerada o seu grande programa pastoral, nos apresenta uma chave de leitura missionária como proposta para que a Igreja se relacione com o mundo atual e leve adiante o projeto de Jesus.

 

70. Neste processo de construção de nosso Plano Diocesano de Pastoral, as palavras do Papa Francisco, nos confirmam na caminhada e nos apontam direção. “Cada Igreja particular, porção da Igreja Católica sob a guia do seu Bispo, está, também ela, chamada à conversão missionária. Ela é o sujeito primário da evangelização31, enquanto é a manifestação concreta da única Igreja num lugar da terra e, nela, "está verdadeiramente presente e opera a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica"32. É a Igreja encarnada num espaço concreto, dotada de todos os meios de salvação dados por Cristo, mas com um rosto local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua preocupação por anunciá-Lo em outros lugares mais necessitados, como em uma constante saída para as periferias do seu território ou para os novos âmbitos socioculturais33. Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado14. Para que este impulso missionário seja cada vez mais intenso, generoso e fecundo, exorto também cada uma das Igrejas particulares a entrar decididamente num processo de discernimento, purificação e reforma” (EG, 30).

 

71. Todo fiel cristão é protagonista no anúncio do Evangelho em virtude do “sensus fidei” (sentido da fé) recebido no Batismo, independentemente do grau de instrução ou da função que exerce na comunidade eclesial. É impensável que a atividade missionária da Igreja seja exercida apenas por alguns escolhidos, sem reconhecer aos demais o seu papel ativo na evangelização (cf. EG, 120). Esse é o sentido da sinodalidade: o “caminhar juntos” de todos os batizados, fiéis leigos e pastores, que se escutam mutuamente, e juntos se colocam à escuta do Espírito Santo para discernir os rumos da ação eclesial. O caminho sinodal da Igreja expressa seu caráter peregrino e missionário, que se realiza na comunhão de todo o povo de Deus (cf. A sinodalidade na vida e na missão da Igreja, 53).

 

As comunidades Eclesiais Missionárias

 

72. As atuais DGAE, imbuídas desse espírito de renovação missionária da Igreja, têm como eixo as Comunidades Eclesiais Missionárias. É comunidade porque quer romper com a ideia de individualismo e indiferença que permeiam nossa realidade. É eclesial porque se congrega como Igreja, chamada por Jesus Cristo a reunir-se em torno da sua pessoa e mensagem. É missionária porque se mantém em constante movimento, pronta para ir além de si mesma.

 

73. A Comunidade Eclesial Missionária tem como referência a casa, suas relações e sua estrutura. Coloca-se a casa como paradigma para a ação pastoral porque casa é lugar de acolhida, de encontro, de se relacionar, de criar laços. É onde se faz a primeira experiência de comunidade, vivida na família, Igreja Doméstica. É onde as pessoas vivem, recordando-nos que a Igreja deve ser presença onde o povo de Deus está.

 

74. A casa precisa estar bem sustentada em seus pilares. Estes não estão à vista, mas escondidos sob a estrutura, dão sustentação e a mantêm segura e de pé. Do mesmo modo, a Comunidade Eclesial Missionária tem seus pilares:

  • na PALAVRA, através da Animação Bíblica da Vida e da Pastoral e da Iniciação à Vida Cristã;

  • no PÃO, através da Liturgia e espiritualidade;

  • na CARIDADE, pela dimensão sociotransformadora e

  • na MISSÃO, identidade da Igreja, que testemunha o Evangelho ao mundo.

Em síntese, Palavra, Pão, Caridade e Missão mantêm de pé a Comunidade Eclesial Missionária.

 

75. Elemento importante na casa é a porta por onde entram e saem aqueles que ali habitam e convivem. Nossa tradição sul-mineira nos recorda portas sempre abertas para o trabalhador que vai para seu serviço, para o vizinho que pede um pouco de açúcar, para a criança que vem e vai de suas brincadeiras, para o passante que quer um copo d'água. Assim deve ser a porta da Comunidade Eclesial Missionária: sempre aberta! Portas abertas para acolher e portas abertas para ir ao mundo. Portas por onde se entra através da Iniciação à Vida Cristã e portas por onde se sai em estado permanente de Missão.

 

76. Uma casa não existe para si mesma. Caso assim fosse seria apenas um amontoado de tijolos, madeira ou outro material que nada diz a ninguém. A casa existe para as pessoas que nela habitam, que nela se encontram em comunhão. Assim se dá com a comunidade cristã, que não pode existir para si mesma. Ela existe para a comunhão entre as pessoas e delas com Deus. Toda comunidade cristã é essencialmente missionária. E sendo missionária é uma “Igreja em saída”, como tanto nos incentiva o Papa Francisco: “(…) prefiro uma Igreja acidentada, ferida, enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa em um emaranhado de obsessões e procedimentos” (EG, 49).

 

77. Comunidades que não geram missionários são tristes expressões de esterilidade. Missionários que não se fundamentam na vida em comunidade correm o risco de se tornar andarilhos solitários, sem referências existenciais para sua atuação ou o que é pior, autorreferencias. Pois, a missão possui caráter totalmente comunitário. Comunidade e missão são como dois lados da mesma moeda: a comunidade eclesial autêntica é, necessariamente, missionária e toda missão se alicerça na vida comunitária e para ela se encaminha. E equipe missionária de Antioquia, da qual Paulo e Barnabé fazem parte, é modelo para nós: a missão parte da comunidade (cf. At 13,1-3) e retorna à comunidade (cf. At 14,21-28) e, por onde passa, gera comunidades eclesiais missionárias.

 

78. Para fortalecer o estado permanente de missão, as pequenas comunidades rurais e urbanas devem possibilitar o encontro com a Palavra e a experiência de vida fraterna que permitem a Iniciação à Vida Cristã: “O contato intensivo, vivencial e orante com a Palavra de Deus confere à reunião da comunidade um caráter de formação discipular. O importante é o encontro com a Palavra que muda a vida e dá sentido ao ser e agir de quem é cristão, corrigindo posturas e aderindo ao modo de ser, de pensar e de agir de Jesus Cristo. O Evangelho passa a ser o critério decisivo para o discernimento em vista da vivência cristã” (DGAE 2019 – 2023, n. 92).

 

O horizonte da missão

 

79. O envio missionário de Jesus é especialmente recordado pela Igreja na liturgia da solenidade da Ascensão, quando o Senhor dirige aos seus o apelo “Ide...” (cf. Mt 28,19; Mc 16,15). Entretanto, nos dois domingos que antecedem a Ascensão, somos convidados a ler e meditar o capítulo 15 do Evangelho de São João, no qual Jesus nos faz o apelo a permanecer: “Permanecei em mim...” (Jo 15,4). Ir e permanecer aparentemente se contradizem, mas na lógica do discipulado missionário são ações que se sustentam. É saída que permanece unida ao tronco-amor, é permanência que impulsiona a sair em anúncio-testemunho. É a permanência em Jesus que faz com que a missão seja permanente. Não se trata de uma missão que nunca se acaba apenas por serem poucos os operários ou a messe ser grande demais, mas, porque em Cristo tudo se renova constantemente. Por isso, o anúncio missionário é sempre novo.

 

80. O ponto de partida da missão é a experiência do encontro pessoal com Jesus e seu Evangelho, mas esse encontro não se dá de uma vez por todas. Ele é constante, é permanente. Sendo assim, a missão também se faz permanente, porque é sempre um novo anúncio dessa experiência de encontro vivida por Cristo, com Cristo e em Cristo. Assim sendo, falar em horizonte da missão é apontar para a permanência da missão, para sua dimensão escatológica35. É tratar a missão como um paradigma para nossa ação pastoral. Enquanto formos caminheiros da estrada de Jesus, precisamos ser missionários, pois o caminhar é missão, ser cristão é ser missionário.

 

81. Entretanto, permanência não pode ser confundida com estaticidade36 ou ficar atrelado a práticas que já não dialogam mais com a realidade. Do mesmo modo que a missão não pode ser apenas um evento, ela também não pode ser uma ação automática, desgastada pela repetição. Por isso, um estado permanente de missão deve ser acompanhado de um propósito permanente de conversão pastoral, uma constante abertura ao novo de Deus.

 

82. Esse convite para a nossa conversão pastoral inclui nosso olhar atento à cultura do povo sul-mineiro. Apesar de termos em nossa diocese algumas cidades não muito pequenas, com população atual entre 50 e 130 mil habitantes, a cultura do nosso povo é predominantemente rural ou semirrural, tanto no campo quanto nas pequenas cidades, embora sofra o constante influxo da cultura urbana. Mesmo nas cidades maiores, a influência rural é muito presente e mesmo nos mais distantes recantos os hábitos urbanos são notados. Desta forma, a evangelização não deve prescindir dessa realidade, onde encontramos muitas pessoas simples e humildes, sem muita familiaridade com conteúdos teológicos e de forte influência agrária e pecuária, mas profundamente influenciadas pelos grandes meios de comunicação e pelas mídias digitais.

 

83. “A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária. Assim será possível que “o único programa do Evangelho continue introduzindo-se na história de cada comunidade eclesial”37 com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se manifeste como mãe que vai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária” (DAp, 350).

 

84. “O projeto pastoral da Diocese, caminho de pastoral orgânica, deve ser resposta consciente e eficaz para atender às exigências do mundo de hoje com “indicações programáticas concretas, objetivos e métodos de trabalho, formação e valorização dos agentes e a procura dos meios necessários que permitam que o anúncio de Cristo chegue às pessoas, modele as comunidades e incida profundamente na sociedade e na cultura, mediante o testemunho dos valores evangélicos”38 (DAp, 351).

1 O Regional Leste 2 da CNBB é composto pelas dioceses dos estados de MG e ES.

2 CD, 11 (cf. também LG, 23 e CD, 28)

3 A Diocese foi criada pelo decreto pontifício Spirituali Fidelium.

4 840.949 hab., estimados pelo IBGE em 2020.

5 Beatificada em 4 de maio de 2013, em Baependi (MG).

6 Beatificado em 14 de novembro de 2015, em Três Pontas (MG).

7 Cf. GEx, 6-9.

8 Mensagem do cardeal Ângelo Amato, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos e legado do Papa Francisco para a beatificação do servo de Deus Pe. Victor.

9 Cf. At. 3,6.

10 Cf. n. 6.

11 A adesão das paróquias foi total e das coordenações diocesanas, parcial: recebemos as atas das reuniões dos CPPs das 70 paróquias e, dentre as forças vivas, apenas do Ministério Extraordinário da Sagrada Comunhão, Pastoral Carcerária, Pastoral Catequética, Pastoral da Comunicação, Pastoral da Criança, Pastoral da Juventude, Pastoral do Surdo, Pastoral da Saúde, Pastoral da Sobriedade, Pastoral da Pessoa Idosa, Pastoral Familiar, Pastoral Vocacional, Movimento Cursilhos de Cristandade, Encontro de Casais com Cristo, Equipes de Nossa Senhora, Campanha da Mãe Peregrina de Schoenstatt, Movimento das Mães que Oram pelos Filhos, Renovação Carismática Católica, Terço dos Homens, Conferência dos Religiosos do Brasil, Setor Juventude e Infância e Adolescência Missionárias.

12 Seminário Diocesano Nossa Senhora das Dores e Comunidade Teológica Senhora do Carmo (COTESC), respectivamente.

13 Arquidiocese de Pouso Alegre, Diocese de Guaxupé e Diocese da Campanha.

14 Cf. nº. 13.

15 Em São Lourenço (MG), no dia 3 de novembro de 2018.

16 www.diocesedacampanha.org.br

17 www.facebook.com/diocesedacampanhaoficial/

18 Personalismo aqui não é tomado no seu sentido filosófico, mas como valorização excessiva do eu pessoal. Na filosofia, atualmente, a isto se chama com maior propriedade de “egotismo”.

19 A Diocese da Campanha possui 16.185 km2 .

20 Cf. DPLS, 180, g.

21 Documento 109 da CNBB.

22 Relativa ao êxodo; em saída, peregrina, a caminho.

23 Cf. LG, 2.

24 Missal Romano, Prefácio da Solenidade de Cristo Rei.

25 DCE, 1; DAP, 11-14; 226a; 240-251; 278a.

26 ChV, 252.

27 DAp, 278.

28 Tg 2,17.

29 Pensamento cristão da Idade Média.

30 Cf. ChL 32

31 Cf. Propositio 41.

32 Conc. Ecum. Vat.II, Decr. sobre o múnus pastoral dos Bispos na Igreja Christus Dominus, 11.

33 Cf. Bento XVI, Discurso por ocasião do 40° aniversário do Decreto «Ad gentes» (11 de Março de 2006): AAS 98 (2006), 337.

34 Cf. Propositio 42.

35 Relativa à consumação final, ao final dos tempos.

36 Sinônimo de ficar parado.

37 Cf. NMI, 12

38 Ibid. 29